Karaté

Karaté – Da Arte Marcial ao Desporto

Identificar de forma correcta a origem das Artes Marciais é tarefa quase impossível, sendo necessário reportarmo-nos às antigas artes da Índia, China e até Grécia. Deste modo, percorreremos apenas uma pequena viagem pelo que é considerado o Karaté “moderno”, que surgiu como arte marcial no final do século XIX, num centro insular do extremo oriente (Okinawa), constituindo-se como um “produto de várias influências culturais” (Figueiredo, 2006, p. 279).

A ilha de Okinawa, actualmente japonesa (desde 1872), foi ao longo dos tempos cobiçada e disputada por imperadores chineses e senhores feudais japoneses. Este facto permitiu-lhe manter um fluxo cultural e económico constante com a China (grande potência cultural da época) e outras regiões da Ásia.

No senso-comum dos praticantes de Karaté, é ainda vigente a ideia de que os diferentes domínios exercidos sobre a ilha não permitiam aos seus habitantes serem portadores de qualquer tipo de arma, impelindo-os a desenvolver técnicas de defesa usando apenas a mão, como o nome, Kara: vazio e Te: Mão, indica. Não obstante, actualmente, alguns autores como McCARTHY (1995) refutam a ideia do desenvolvimento de técnicas de luta inerme e/ou a utilização de utensílios agrícolas, como forma de resistência anti-feudal. De facto, não é evidente que o desenvolvimento do Karaté-Dô[1] tenha ocorrido como forma de reacção à proibição de porte de armas. Segundo Figueiredo (2006), a influência de enviados especiais do Imperador Chinês, entre os quais especialistas em segurança pessoal, seria suficiente para o desenvolvimento de técnicas de luta desarmada, bem como permitiria o desenvolvimento do Boxe Chinês em Okinawa, o qual seria aprimorado pela utilização de metodologias próprias de alguns dos seus mestres, conferindo-lhes um cunho pessoal, ajustado aos seus valores culturais.

É neste contexto que a prática do Karaté-Dô, como hoje a conhecemos, inicia o seu desenvolvimento. Envolvida por um ambiente de secretismo provocado pelas imposições das diferentes opressões ou como resultado da segregação das classes mais elevadas da sociedade “Okinawense” que, por valores éticos, se viam impedidas de partilharem os “conhecimentos da prática em ambientes para além dos restritos a essa mesma prática” (Figueiredo, 2006, p. 289). Por outras palavras, estudos actuais referem que o secretismo surge como opção de vida de uma elite social, e não como uma resposta á opressão.

Ao mesmo tempo, um dos alicerces fundamentais e intrínsecos da arte do te é que nem todos a podem aprender, sendo necessária a aceitação por parte de um mestre de que o carácter do aluno é adequado à aprendizagem do Karaté-Dô.

Estas especificidades atribuíam ao Karaté moderno um cariz predominantemente ético, em que o bem comum e o controlo dos comportamentos pessoais constituíam os seus vectores estruturais.

Como veremos, esta premissa inicial para o desenvolvimento do Karaté-Dô está, nos nossos dias, em desuso.

O início da globalização do Karaté-Dô dá-se com a sua inserção nos currículos escolares em Okinawa, em 1901 ou 1902, por ordem do Ministro da Educação, após se ter evidenciado uma superioridade física por parte dos seus praticantes (Figueiredo, 2006). Nesta primeira fase de massificação, o ensino do Karaté tinha um objectivo militarista, sendo encarado como forma de cultivar uma força de vontade marcial, que ao ser ensinado desde cedo às crianças poderia ser-lhes úteis na sua formação pessoal e militar. Nesta altura são cultivadas rotinas como o alinhamento tipo militar, resposta em voz alta ao professor, saudação ao local de prática e saudação no início e fim da sessão. Este é o estereótipo de aula de Karaté que ainda hoje é preconizado em grande parte dos dojos[2].

O “salto” da Ilha de Okinawa para o Japão não foi fácil, uma vez que no Japão o Judo e o Kempo ocupavam uma posição privilegiada no que concerne à preparação física. Registos de FUNAKOSHI (Funakoshi, 1924) indicam que, em 1912, alguns marinheiros da frota imperial japonesa, estacionada em Okinawa, praticaram Karaté durante uma semana e divulgaram-no nos círculos centrais.

O passo decisivo ocorre, no entanto, com a “emigração” de alguns dos principais mestres de Karaté de Okinawa, entre os quais se destaca Gichin FUNAKOSHI, para o Japão, que vão ser árduos difusores do Karaté.

Segundo FIGUEIREDO (2006), em 1924, FUNAKOSHI estabelece o modelo padrão de graduações de nível de prática que ainda hoje é vigente, em que o professor assume responsabilidade pela graduação do aluno sem ser necessário qualquer reconhecimento institucional.

Também durante o decorrer deste ano ocorre outro passo significativo para o desenvolvimento futuro da modalidade, ao ser criado o primeiro dojo universitário que permite formar instrutores de Karaté com níveis académicos superiores e projectar uma imagem positiva da modalidade. Até 1935, surgem mais de três dezenas de dojos espalhados por escolas secundárias, institutos e até, associações de negócios (Cook, 2001). O Karaté é cada vez mais um desporto de todos e não de uma elite.

Do japão para o Mundo

O associativismo Universitário, ao mesmo tempo que permite uma vasta divulgação do Karaté, incorpora algumas modificações às concepções tradicionais da prática do mesmo, levando à organização do 1º Torneio da modalidade (Figueiredo, 2006).

Após a sua génese em Okinawa, divulgação e, em certa medida, “inovação” no Japão, sentia-se agora a necessidade de expandir os ensinamentos do Karaté a nível Mundial.

A conjectura gerada pela II Guerra Mundial com a destruição de grande parte dos dojos, quer em Okinawa como no Japão, abranda o seu desenvolvimento. Ainda assim, o principal efeito da guerra foi o surgimento de “instrutores instantâneos de Karaté” (Nagamine, 1998). Os mestres mais conceituados consideravam que após a humilhante derrota, o verdadeiro Karaté não poderia ser ensinado aos jovens pseudo-mestres japoneses. Foram estes jovens, ávidos pelo desenvolvimento da modalidade que, nas palavras de Henri PLÈE (cit. Figueiredo, 2006), “nos ‘venderam’ apenas um dos aspectos das suas Artes Marciais: o Karaté espectáculo”. Tal facto proporcionou, partir da década de 50, a emigração e expansão para todo o Mundo de um Karaté de certa forma desvirtuado na sua essência.Com efeito, até no Japão a filosofia do Karaté foi distorcida, ao deixar de ser a formação do carácter humano o objectivo principal do Karaté-Dô.

O pós-guerra criou então a conjectura ideal para o surgimento de novas metodologias e novas formas de estar no Karaté, ao que se adicionaram as influências ocidentais, repletas de novas estratégias de ensino, e de um modelo de formação estruturado e institucionalizado.

Os militares americanos entraram em contacto com o Karaté, quer no Japão quer em Okinawa, levando ao aparecimento de linhas de Karaté distintas devido ao vínculo com a região embrionária. A “caixa de Pandora” está agora aberta, e nos anos seguintes são vários os contactos entre os mestres de Karaté e as patentes americanas, que ao regressarem à pátria divulgaram as suas aprendizagens.

Por esta altura duas correntes “concorriam” entre si. Enquanto as linhas de Okinawa tentavam manter a essência do Karaté Tradicional, tendo como base a formação integral do ser humano segundo o Budo[3](essência essa que está inscrita na cultura “Okinawense”), a outra corrente aproximava o Karaté do fenómeno competitivo institucionalizado (Figueiredo, 2006).

Ao analisarmos esta resumida viagem ao longo da história do Karaté, verificamos que o mesmo deixou o seu cariz de “secretismo”, desenvolveu as suas virtualidades educativas, expandiu-se e inovou-se através dos movimentos universitários e, após a II Guerra Mundial, institucionalizou-se e a competição generalizou-se (principalmente no Japão).

O Karate contemporâneo

A prática de Karaté na actualidade, e no que diz respeito à aparência das aulas, não é muito distinta das originais, mantendo o aspecto formal militarista. No entanto, as semelhanças tendem a esvanecer-se, uma vez que os novos conhecimentos ao nível da metodologia do treino impelem os actuais mestres/treinadores[4] a modificarem o processo de ensino-aprendizagem dos diferentes conteúdos.

Tal facto, na nossa opinião, é apenas a consequência natural de uma arte que como FIGUEIREDO (1987) refere, é um produto cultural que não se formou “espontaneamente, mas que tem acompanhado o Homem, na sua vivência, no seu desenvolvimento, adquirindo significados característicos a cada época, a cada tempo e espaços específicos”. Deste modo, consideramos que a génese do Karaté em Okinawa reflecte a sua cultura própria e, portanto, foi dotada de uma série de condutas e valores próprios da sociedade da época. Da mesma forma, na actualidade, ao ser praticado em todo o globo, o Karaté reflecte a cultura própria da comunidade onde decorre a sua prática, levando a que cada vez mais os seus princípios fundadores sejam substituídos por princípios de acção baseados nos valores orientadores de cada cultura. Não é que o Karaté esteja desvirtuado, pelo contrário, mantém a sua conduta original de responder aos valores culturais e singulares de cada sociedade. A este respeito Giles (2007) afirma que “alguns de nós ainda acreditamos ingenuamente que as tradições (…) podem proteger a prática das influências sociais ou políticas do mundo em que existem”. O mesmo autor compara o possível desenvolvimento de uma qualquer arte marcial num vacum político, à defesa de uma tese que argumente que Shakespeare ou Mozart ou Picasso foram de algum modo independentes dos eventos históricos que de facto os moldaram.

O essencial parece-nos ser que os objectivos fundamentais permaneçam os mesmos, o bem-comum e a formação do carácter, apesar da forma de os alcançar poder correr caminhos diferentes, quer nós encaremos o Karaté como arte marcial ou como desporto de combate. Não obstante, nos dias de hoje e tendo em conta a conjectura cultural contemporânea, urge-nos acreditar que o significado do Karaté como desporto de combate e arte marcial é o mesmo, sendo cada vez mais difícil distinguir ambos.

Daniel Santos


[1] Do – significa o caminho ou a via.

[2] É o local onde se treinam artes marciais, especialmente as nipónicas. O mesmo deve ser respeitado como se fosse a casa de cada um dos alunos.

[3] Budo – caminho marcial.

[4] Mestres/treinadores – esta é uma dicotomia difícil de descortinar. Na nossa opinião, hoje em dia existe uma linha muito ténue a separar o mestre do treinador. De facto, os conceitos muitas vezes se misturam: verificamos que ao mesmo tempo que o mestre se dedica ao ensino da arte marcial, o treinador preocupa-se com as questões da prestação desportiva.

Bibliografia

Cook, H. (2001). Shotokan Karate – A Precise History. Inglaterra: Dragon Associates.

Figueiredo, A. (Novembro-Dezembro de 1987). O Significado Actual do Karaté – Arte Marcial / Desporto de Combate. Revista de Educação Física e Desporto – Horizonte , pp. Dossier I-VII.

Figueiredo, A. (2006). A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO KARATÉ – Os Modelos Organizacionais do Karaté em Portugal. Tese de Doutoramento – FADEUP: Porto.

Funakoshi, G. (1924). Funakoshi Gichin – Karatdo Tanpenshu – Short Stories of Karatedo. (P. McCarthy, & Y. McCarthy, Trads.) Brismane: International Ryukyu Karate Research.

Giles, M. G. (2007). Politics and Karate:Historical Influences on the Practice of Goju-ryu. Journal of Asian Martial Arts , 16, pp. 3: 30-49.

McCarthy, P. (1995). The Bible of Karate: Bubishi. Tuttle Publishing.

Nagamine, S. (1998). The Essence of Okinawan Karate-do. Tuttle Publishing.